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21 de fevereiro de 2016

Depois Da Igreja



Um vento forte, e que parecia ter vida própria, investia contra Elena, fazendo o cabelo castanho-claro da garota vergastar seu suéter. A chuva intermitente ensopara seus cabelos, a saia longa, e a bíblia que ela carregava, mas Elena não se importava.
A única coisa com a qual ela se importava no momento era ir para casa, pois o culto havia acabado mais cedo e a casa de seus pais ficava a alguns poucos quilômetros. Por isso, continuou andando naquela floresta deserta, ignorando os galhos afiados das árvores e o aspecto assustador que as copas assumiam quando Elena, uma vez ou outra, olhava para cima.
Agora era inacreditável pensar que aquele já havia sido, para Elena, um lugar etéreo. Aquele lugar podia ser tudo, menos celestial. Em vez disso, era áspero, frio, inospitaleiro. A umidade pegajosa e os pinheiros batendo uns contra os outros contribuiam para reforçar a sensação opressora e sufocante daquele matagal. Além disso, Elena podia jurar que ouvira um barulho de chocalho, mas isso era rídiculo, porque não havia nenhuma cascavel naquela região.
Elena parou, concentrada em ouvir com os mais atenção os sons ao redor, mas, de repente, os sons suspeitos - como o chocalho - pararam, e elas só conseguiu ouvir o som das folhas e do vento. Convencida de que era só a impressão exagerada de alguém que estava sozinha em um floresta, à noite, de madrugada, ela continuou andando.
- Elena... - Alguém chamou.
Elena travou, perplexa.
"É só minha imaginação...", pensou, mas isso não a estimulou a se mexer.
E ficou esperando, sabe Deus pelo quê.
Como não houve resposta, ela continuou andando, mesmo com as pernas tremendo e a sensação de ter levado um soco na barriga. Era uma sensação conhecida, trazida pelo medo; quando você sente seu coração palpitando e uma vozinha lhe dizendo que alguma coisa está errada.
Ela ouviu um som diferente do som que os galhos quebrando debaixo de seus pés produzia, e parou. Novamente, não conseguiu detectar nada, então continou andando, cada vez mais rápido.
Trec, trec, trec.
Desta vez, ela teve certeza absoluta de que ouvira algo. No entanto, era um som estranho e assustador, e pareciam ser cascos. Cascos como os de um cavalo, ou de outro animal.
Elena queria correr, mas o medo a impossibitava.
Elena...
Agora a voz parecia estar dentro de sua mente, e ela sentiu o estômago dando um looping. Eram cascos, um chocalho, e alguma coisa mais... Uma respiração; muito pesada, e muito alta.
O ritmo dos cascos batendo contra o chão aumentou, e Elena cobriu a boca com a mão para não gritar.
Trec, trec, trec.
Mais rápido.
Trec, trec, trec.
Mais rápido.
Trec, trec, trec.
E cada vez mais próximo.
Quando Elena achou que não aguentava mais andar, decidiu olhar para trás, para a direção dos sons estranhos. E se arrependeu de ter feito isso. Porque quando ela olhou, seu coração pareceu afundar, seu estômago embulhou e ela quase desfaleceu.
Elena não conseguiu gritar, nem fazer nada por algum tempo. Nada além de olhar a criatura.
Era uma coisa enorme, de quase dois metros e meio de altura, uma mistura bizarra de animal com humano. Os chifres brancos e sujos de sangue estavam no topo da cabeça de touro, mas o pescoço, o tronco e as pernas tinham aparência humana, embora o sujeito estivesse nú e com a pele cinza e apodrecida. Nas extremidades das pernas, onde deveriam estar dois pés putrefatos, haviam dois cascos enormes e lustrosos.
Na boca do animal, estava estampado um sorriso ensanguentado e humano. Era o sorriso sádico de alguém macabro e letal.
Ela só conseguiu reagir quando a coisa bizarra, fétida e aterrorizante correu em uma disparada, na direção dela.
- ELENA, OS INFIÉIS, ELENA, OS INFIÉIS, ELENA, OS INFIÉIS... - Elena ouvia o monstro gritando, a voz esganiçada interrompida apenas pelas risadas estridentes.
Elena deixou a bíblia cair, e tropeçou quando seu pé se enfiou em um buraco.
- Afasta-te, Satanás... - Ela gaguejou, pegando a bíblia do chão e sacudindo. - Afasta-te...
Mas a criatura nunca se afastou. Em vez disso, continuou a corrida desajeitada e voraz, rindo e gritando:
- ELENA, OS INFIÉIS, ELENA, OS INFIÉIS...
Elena fechou os olhos.
***
Elena foi encontrada alguns dias depois. O corpo estava esburacado, quase irreconhecível, a cabeça quase se desprendendo do corpo. Ao lado dela, na árvore, estava escrito, com uma caligrafia tosca:
OS INFIÉIS JAZEM AQUI.
A alguns metros dali, vários outros corpos, em estado semelhante, putrefaziam.

Ass: Glaucow Maciel Freitas

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