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23 de fevereiro de 2016

A Tragedia do Cine Oberdan



Inicio do século XX, mais precisamente final da década de 1920, corria o ano de 1927 quando foi inaugurado pelos irmãos Taddeo da Sociedade Italiana Leale Oberdan, o mais luxuoso cine theatro de São Paulo, o “Cine Theatro Oberdan”, que logo passou a ser chamado somente de Cine Oberdan. O nome Oberdan é uma homenagem dada a Guglielmo Oberdan, um famoso anarquista italiano cujo camafeu com seu rosto pode ainda ser encontrado na fachada lateral do prédio. Localizado a altura do número 95 na rua Ministro Firmino Whitaker (antiga Chavantes, número 07) em junção com a Saião Lobato no bairro do Brás, o cinema destacava-se em meio às demais construções de sua época por sua imponência e luxo. Com seu enorme interior (mais de 1.200 lugares) repleto de grandes estatuas, o teto todo ornamentado em azulejos vindos de Portugal e com suas escadarias ostensivas, o Cine Theatro vivia lotado da mais alta sociedade paulista, tanto em suas sessões noturnas quanto nas vesperais. Mesmo com concorrentes a altura, como o notável Cine Metro, o Oberdan reinava absoluto entre os maiores cinemas de São Paulo, reinado esse que foi ocasionalmente prejudicado depois de uma enorme tragédia ocorrida em 1938, onze anos após sua inauguração.

"O Cine Theatro Oberdan no inicio dos anos 1930"

Domingo, 10 de abril de 1938, era pouco mais de 15:00 horas quando iniciava a vesperal do Cine Oberdan; o espetáculo trazia além dos seriados Agente Secreto X-9 e Ameaças da Selva, que eram as grandes sensações da criançada, os filmes Astúcia Contra a Força e a grande atração Criminosos do Ar, de Charles C. Coleman. Completamente lotado, 1.200 ingressos foram vendidos, sendo a maior parte deles destinados a petizada. Talvez o que para muitos ali presentes significava mais um final de semana trivial, para outros era uma novidade estar adentrando pela primeira vez naquele magnificente “Theatro”. O mais triste porém, é saber que para mais de 30 pessoas aquela estava sendo definitivamente a última sessão de cinema.
" Em estreia Criminosos do Ar de Charles C.Coleman"

Mais o que aconteceu afinal? Qual foi a tragédia que destruiu famílias e manchou definitivamente a fama e a ostentação do majestoso cinema? Pois bem, segundo consta, existem duas versões que explicam o confrangedor incidente. A primeira delas diz que próximo do final do filme em uma determinada cena onde dois aviões se chocam ocasionando uma explosão, em meio ao barulho e a ação do filme ouve-se na platéia gritos de fogo!! fogo!! Nesse momento, o público diante de grande temor, imaginando que se tratava de um incêndio, parte em disparada rumo às saídas (que não eram mais que duas, já que na época não havia a preocupação em se ter saídas de emergências) que se davam através das ostensivas escadas. O pânico e o desespero que tomou conta das crianças e adultos fizeram com que a cordialidade e o cavalheirismo desaparecessem e em um verdadeiro ato de salve-se quem puder iniciou-se uma triste e fatal cena. 

"Uma rara foto interna comprova o tamanho do local"

Atropeladas enquanto a multidão freneticamente corria de algo que não existia, diversas crianças eram pisoteadas e lançadas escadas abaixo resultando em pouquíssimos minutos um verdadeiro massacre. Até tomarem conta de que não havia incêndio algum a loucura já estava feita e somente com a chegada do socorro pode-se perceber o tamanho da desgraça. O chão do majestoso Hall de entrada do Cine Theatro Oberdan encontrava-se abarrotado de sangue e cadáveres; cerca de 30 crianças e uma única mulher adulta que morreu pisoteada quando na tentativa de salvar seu pequeno bebe deitou-se no chão cobrindo-o com os braços.

"As apertadas escadas de acesso as saídas e os vestígios de desespero"

" Vestígios de desespero "

"Crianças mortas no local"

O chefe de policia da época, o Sr. Brasiliense Carneiro assim que constatou a seriedade da ocorrência tratou de pedir a urgente remoção das vitimas e feridos do lugar encaminhando-os respectivamente para o necrotério do Araçá (no cemitério da Quarta Parada) e para a santa casa de São Paulo. Em seguida, fechou até segunda ordem o cinema para a realização da pericia. O impacto da tragédia foi de tão grande repercussão que sensibilizou toda a capital. Os jornais Folha da Manhã, Folha da Noite (atual Folha de São Paulo), Estado de São Paulo e Correio Paulistano deram completa cobertura a tragédia levando a população detalhes minuciosos do ocorrido.

" Mesmo dias após a tragédia as noticias repercutiam "

Jornal " Folha da noite " do dia 11 de abril de 1983 noticia a tragédia"

Jornal " Correio Paulistano " de 12 de abril de 1983

" Notas de jornais dando como fechado o Cine temporariamente "

A pericia realizada no interior do prédio e os relatos dos sobreviventes que presenciaram o fato levaram a policia técnica a chegar a uma outra versão sobre o que realmente aconteceu naquele fim de tarde. Essa, portanto ficou definida como sendo a versão verdadeira do incidente: Um menino que se encontrava na platéia sentindo fortes dores de barriga tenta o auxilio de um lanterninha para se dirigir até o banheiro, não encontrando nenhum, ele segue sozinho até o mesmo. Sem ter tempo de chegar, ele acaba por fazer parte de suas necessidades no caminho, e ao encontrar-se nos sanitários, para sua surpresa, as luzes estavam desligadas. Não tendo como se limpar no escuro o menino decide atear fogo em um pequeno pedaço de jornal, e estando com a porta entreaberta, desperta nesse momento a atenção de alguém que imediatamente diante das pequenas chamas alarma o incêndio.
" O banheiro onde foram encontrada as provas do relato"

" A bermuda do petiz confirma os fatos"

Diversas famílias foram arrasadas diante da triste situação. Alguns pais nunca se conformaram em perder de maneira tão brusca seus pequenos filhos. Conta-se que uma mãe lamentou até seus últimos dias de vida (no inicio dos anos 80) o fato de ter contrariado o filho Enrico Mandorino que desejava ir ao Jóquei Club da Mooca naquela tarde, e ela não permitindo, sugeriu que o mesmo sossegasse passando à tarde na vesperal do cinema. Outro caso mais triste ainda foi o dos Pricolli que perderam dois filhos na tragédia, os pequenos Walter Pricolli de 12 anos e Pedro Pricolli de 8. O poder público do estado ao notar que grande parte das famílias não se encontrava em condições financeiras de realizar o funeral de seus entes queridos, decide pagar todas as despesas e fazer a última homenagem de forma coletiva. Nesse triste dia a associação comercial juntamente com a federação das indústrias e os sindicatos dos empregados de São Paulo decidem decretar luto oficial, parando completamente a cidade. A multidão que acompanhou as exéquias, segundo relatos dos jornais, foi gigantesca, todos se encontravam destroçados diante do horrendo acontecimento. 

 O desespero toma conta de familiares no local

Minutos após a tragedia do aglomerado de curiosos

Em meio a confusão estacionam os carros funerários


Moça se despede do suposto irmão morto

No necrotério do Araçá corpos são reconhecidos

Pai se despede de seu filho

As vitimas do necrotério de Araçá

O trágico resultado do frenesi ocasionado por nada

Assustados, três dos sobreviventes recebem jornalistas ainda em hospitais

Funeral de algumas vitimas 

Reportagem do Coreio Paulistano, momento feliz de alta de José Musico com seu pai

Triste caso de Carmino Pricoli que perdeu dois filhos

O Cine Theatro Oberdan ficou fechado somente 03 dias depois do incidente, pois conforme observamos nesse anúncio abaixo, extraído do jornal Folha da Manhã do dia 12 de abril, então uma terça feira, ele anunciava sua reabertura para próxima quinta dia 14 exibindo o filme “Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, possivelmente em função das comemorações de Páscoa.

Jornal folha de SP da manhã de 12 de abril de1938

Mesmo estando novamente em funcionamento, nunca mais o cinema foi o mesmo, e sua popularidade diminuía consideravelmente com o passar dos anos. A pompa e o glamour de outrora não mais existia, restavam somente as tristes lembranças daquela fatídica tarde. Em meio altos e baixos as portas do Cine Theatro Oberdan fecharam-se definitivamente em meados dos anos 60 e o prédio caiu em um profundo e silencioso esquecimento. Nos anos setenta, mediante a ótima localização comercial, a edificação é vendida para a empresa de roupas de cama, mesa e banho “Lojas Zelo”, que decidiu preservar (pelo menos externamente) a estrutura original da construção. Hoje, o antigo Cine Theatro Oberdan, que no passado ostentou tantas diversões e infelizmente uma grande tragédia, permanece lá passando despercebido entre a multidão que sem saber de seu passado o considera apenas mais um imóvel antigo de São Paulo.

" Hoje o local funciona com a mesma arquitetura um prédio da fabrica Zelo "


FONTE :
Agradeço imensamente a minha fonte; Douglas Nascimento e sua perfeita matéria publicada em seu perfeito site: São Paulo Antiga, (www.saopauloantiga.com.br) Não deixem de visitar.
Para maiores informações sobre esse incidente visite também o arquivo digitalizado dos Jornais Folha da Manhã e Folha da Noite filtrando a pesquisa pela data do ocorrido, para facilitar siga o seguinte link que já te levara a principal matéria: http://acervo.folha.com.br/fdm/1938/04/12/145
http://ocinemaantigo.blogspot.com.br/2012/04/triste-vesperal-do-cine-oberdan.html