Inicio do século XX, mais
precisamente final da década de 1920, corria o ano de 1927 quando foi
inaugurado pelos irmãos Taddeo da Sociedade Italiana Leale Oberdan, o mais
luxuoso cine theatro de São Paulo, o “Cine Theatro Oberdan”, que logo passou a
ser chamado somente de Cine Oberdan. O nome Oberdan é uma homenagem dada a Guglielmo Oberdan, um famoso anarquista italiano cujo camafeu com seu rosto
pode ainda ser encontrado na fachada lateral do prédio. Localizado a altura do
número 95 na rua Ministro Firmino Whitaker (antiga Chavantes, número 07) em
junção com a Saião Lobato no bairro do Brás, o cinema destacava-se em meio às
demais construções de sua época por sua imponência e luxo. Com seu enorme
interior (mais de 1.200 lugares) repleto de grandes estatuas, o teto todo
ornamentado em azulejos vindos de Portugal e com suas escadarias ostensivas, o
Cine Theatro vivia lotado da mais alta sociedade paulista, tanto em suas
sessões noturnas quanto nas vesperais. Mesmo com concorrentes a altura, como o
notável Cine Metro, o Oberdan reinava absoluto entre os maiores cinemas de São
Paulo, reinado esse que foi ocasionalmente prejudicado depois de uma enorme
tragédia ocorrida em 1938, onze anos após sua inauguração.

"O Cine Theatro Oberdan no inicio dos anos 1930"
Domingo, 10 de abril de 1938, era
pouco mais de 15:00 horas quando iniciava a vesperal do Cine Oberdan; o
espetáculo trazia além dos seriados Agente
Secreto X-9 e Ameaças da Selva, que eram as
grandes sensações da criançada, os filmes Astúcia
Contra a Força e a grande
atração Criminosos do Ar, de Charles C. Coleman. Completamente
lotado, 1.200 ingressos foram vendidos, sendo a maior parte deles destinados a
petizada. Talvez o que para muitos ali presentes significava mais um final de
semana trivial, para outros era uma novidade estar adentrando pela primeira vez
naquele magnificente “Theatro”. O mais triste porém, é saber que para mais de
30 pessoas aquela estava sendo definitivamente a última sessão de cinema.
" Em estreia Criminosos do Ar de Charles C.Coleman"
Mais o que aconteceu afinal? Qual
foi a tragédia que destruiu famílias e manchou definitivamente a fama e a
ostentação do majestoso cinema? Pois bem, segundo consta, existem duas versões
que explicam o confrangedor incidente. A primeira delas diz que próximo do
final do filme em uma determinada cena onde dois aviões se chocam ocasionando
uma explosão, em meio ao barulho e a ação do filme ouve-se na platéia gritos de
fogo!! fogo!! Nesse momento, o público diante de grande temor, imaginando que
se tratava de um incêndio, parte em disparada rumo às saídas (que não eram mais
que duas, já que na época não havia a preocupação em se ter saídas de
emergências) que se davam através das ostensivas escadas. O pânico e o
desespero que tomou conta das crianças e adultos fizeram com que a cordialidade
e o cavalheirismo desaparecessem e em um verdadeiro ato de salve-se quem puder
iniciou-se uma triste e fatal cena.
"Uma rara foto interna comprova o tamanho do local"
Atropeladas enquanto a multidão freneticamente
corria de algo que não existia, diversas crianças eram pisoteadas e lançadas
escadas abaixo resultando em pouquíssimos minutos um verdadeiro massacre. Até
tomarem conta de que não havia incêndio algum a loucura já estava feita e
somente com a chegada do socorro pode-se perceber o tamanho da desgraça. O chão
do majestoso Hall de entrada do Cine Theatro Oberdan encontrava-se abarrotado
de sangue e cadáveres; cerca de 30 crianças e uma única mulher adulta que
morreu pisoteada quando na tentativa de salvar seu pequeno bebe deitou-se no
chão cobrindo-o com os braços.
"As apertadas escadas de acesso as saídas e os vestígios de desespero"
" Vestígios de desespero "
"Crianças mortas no local"
O chefe de policia da época, o Sr.
Brasiliense Carneiro assim que constatou a seriedade da ocorrência tratou de
pedir a urgente remoção das vitimas e feridos do lugar encaminhando-os
respectivamente para o necrotério do Araçá (no cemitério da Quarta Parada) e
para a santa casa de São Paulo. Em seguida, fechou até segunda ordem o cinema
para a realização da pericia. O impacto da tragédia foi de tão grande
repercussão que sensibilizou toda a capital. Os jornais Folha da Manhã, Folha
da Noite (atual Folha de São Paulo), Estado de São Paulo e Correio Paulistano
deram completa cobertura a tragédia levando a população detalhes minuciosos do
ocorrido.
" Mesmo dias após a tragédia as noticias repercutiam "
Jornal " Folha da noite " do dia 11 de abril de 1983 noticia a tragédia"
Jornal " Correio Paulistano " de 12 de abril de 1983
" Notas de jornais dando como fechado o Cine temporariamente "
A pericia realizada no interior do prédio e os
relatos dos sobreviventes que presenciaram o fato levaram a policia técnica a
chegar a uma outra versão sobre o que realmente aconteceu naquele fim de tarde.
Essa, portanto ficou definida como sendo a versão verdadeira do incidente: Um
menino que se encontrava na platéia sentindo fortes dores de barriga tenta o
auxilio de um lanterninha para se dirigir até o banheiro, não encontrando
nenhum, ele segue sozinho até o mesmo. Sem ter tempo de chegar, ele acaba por
fazer parte de suas necessidades no caminho, e ao encontrar-se nos sanitários,
para sua surpresa, as luzes estavam desligadas. Não tendo como se limpar no
escuro o menino decide atear fogo em um pequeno pedaço de jornal, e estando com
a porta entreaberta, desperta nesse momento a atenção de alguém que
imediatamente diante das pequenas chamas alarma o incêndio.
" O banheiro onde foram encontrada as provas do relato"
" A bermuda do petiz confirma os fatos"
Diversas famílias foram arrasadas diante da triste situação. Alguns pais nunca se conformaram em perder de maneira tão brusca seus pequenos filhos. Conta-se que uma mãe lamentou até seus últimos dias de vida (no inicio dos anos 80) o fato de ter contrariado o filho Enrico Mandorino que desejava ir ao Jóquei Club da Mooca naquela tarde, e ela não permitindo, sugeriu que o mesmo sossegasse passando à tarde na vesperal do cinema. Outro caso mais triste ainda foi o dos Pricolli que perderam dois filhos na tragédia, os pequenos Walter Pricolli de 12 anos e Pedro Pricolli de 8. O poder público do estado ao notar que grande parte das famílias não se encontrava em condições financeiras de realizar o funeral de seus entes queridos, decide pagar todas as despesas e fazer a última homenagem de forma coletiva. Nesse triste dia a associação comercial juntamente com a federação das indústrias e os sindicatos dos empregados de São Paulo decidem decretar luto oficial, parando completamente a cidade. A multidão que acompanhou as exéquias, segundo relatos dos jornais, foi gigantesca, todos se encontravam destroçados diante do horrendo acontecimento.

O desespero toma conta de familiares no local
Minutos após a tragedia do aglomerado de curiosos
Em meio a confusão estacionam os carros funerários
Moça se despede do suposto irmão morto
No necrotério do Araçá corpos são reconhecidos
Pai se despede de seu filho
As vitimas do necrotério de Araçá
O trágico resultado do frenesi ocasionado por nada
Assustados, três dos sobreviventes recebem jornalistas ainda em hospitais
Funeral de algumas vitimas
Reportagem do Coreio Paulistano, momento feliz de alta de José Musico com seu pai
Triste caso de Carmino Pricoli que perdeu dois filhos
O Cine Theatro Oberdan ficou
fechado somente 03 dias depois do incidente, pois conforme observamos nesse
anúncio abaixo, extraído do jornal Folha da Manhã do dia 12 de abril, então uma
terça feira, ele anunciava sua reabertura para próxima quinta dia 14 exibindo o
filme “Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, possivelmente em
função das comemorações de Páscoa.
Jornal folha de SP da manhã de 12 de abril de1938
Mesmo estando novamente em
funcionamento, nunca mais o cinema foi o mesmo, e sua popularidade diminuía
consideravelmente com o passar dos anos. A pompa e o glamour de outrora não
mais existia, restavam somente as tristes lembranças daquela fatídica tarde. Em
meio altos e baixos as portas do Cine Theatro Oberdan fecharam-se
definitivamente em meados dos anos 60 e o prédio caiu em um profundo e
silencioso esquecimento. Nos anos setenta, mediante a ótima localização
comercial, a edificação é vendida para a empresa de roupas de cama, mesa e
banho “Lojas Zelo”, que decidiu preservar (pelo menos externamente) a estrutura
original da construção. Hoje, o antigo Cine Theatro Oberdan, que no passado
ostentou tantas diversões e infelizmente uma grande tragédia, permanece lá
passando despercebido entre a multidão que sem saber de seu passado o considera
apenas mais um imóvel antigo de São Paulo.
" Hoje o local funciona com a mesma arquitetura um prédio da fabrica Zelo "
FONTE :
Agradeço imensamente a minha fonte; Douglas Nascimento e sua perfeita matéria
publicada em seu perfeito site: São Paulo Antiga, (www.saopauloantiga.com.br) Não deixem de
visitar.
Para maiores informações sobre esse incidente visite
também o arquivo digitalizado dos Jornais Folha da Manhã e Folha da Noite
filtrando a pesquisa pela data do ocorrido, para facilitar siga o seguinte link
que já te levara a principal matéria: http://acervo.folha.com.br/fdm/1938/04/12/145
http://ocinemaantigo.blogspot.com.br/2012/04/triste-vesperal-do-cine-oberdan.html